“A Arte de Morrer”: uma valiosa mensagem de Bruce Lee sobre nosso ego.

Em fevereiro de 1971 foi ao ar pela ABC um seriado chamado “Longstreet”. Estrelado por James Franciscus, a história acompanhava Michael Longstreet, um investigador que se recuperou de uma explosão que o cegou e acabou matando sua esposa. Longstreet passa então a buscar pelos criminosos que fizeram isso.

Bruce Lee apareceu em quatro episódios de Longstreet. Seu papel, cujo personagem era chamado Li Tsung, era de instrutor de Mike Longstreet (James Franciscus), e tinha como objetivo ensiná-lo uma série de técnicas de artes marciais para auto-defesa.

Em uma das cenas, além de dizer a tão conhecida frase “Be Water, My Friend”, o personagem de Lee pergunta para Michael Longstreet quando será sua próxima luta. Ao descobrir que seria amanhã, ele diz a Longstreet:

James Franciscus e Bruce Lee no seriado “Longstreet” (1971)

“Como todo mundo, você quer aprender a maneira de vencer, mas nunca aceitar a maneira de perder, aceitar a derrota. Aprender a morrer é estar livre dela. Então, quando amanhã chegar, você deve libertar sua mente ambiciosa, e aprender a arte de morrer “ — Bruce Lee.

Mas o que Bruce Lee quis dizer com isso?

A partir do termo “A Arte de Morrer”, irei abordar 3 pontos para aprofundar o significado da frase por meio da explicação das visões de vida de Bruce Lee e sua relação com outro autores filosóficos que falam sobre este mesmo tema, alguns deles sendo filósofos que o influenciaram durante sua vida.

Em seu livro póstumo, O Tao do Jeet Kune Do, publicado em 1975, Lee afirmou que seu estilo de luta, denominado Jeet Kune Do, envolve tanto os estudos de um conjunto de técnicas de artes marciais quanto o desenvolvimento da espiritualidade:

“O espírito é, sem dúvida, o agente controlador da nossa existência. Esse centro invisível controla todos os movimentos em qualquer situação externa que aparecer” — Bruce Lee.

“A Arte de Morrer” (The Art of Dying), exposta na série Longstreet (1971), não é uma ideia literal. Não se trata de morrermos fisicamente, mas de uma metáfora cuja ideia central consiste em deixarmos que o nosso ego morra.

Theo Fischer, no livro Wu Wei: a Arte de Viver o Tao, diz que o ego é todo o conjunto de experiências, acúmulos, análises e memórias que compõe nossa visão a respeito de nós mesmos. Esse ego carrega todos os nossos preconceitos, distorções e é formado por um pensamento limitado e parcial da realidade, o que impede de o enxergarmos como ela realmente é.

Ele também afirma que:

Para os sábios a morte não é em primeiro lugar a desintegração do corpo. A morte significa o fim do ego, um processo que a pessoa do Tao tenta realizar ainda em vida. Quando esta formação artificial do “eu” sumir de nossa existência, podemos viver além do nosso “eu”, isto é, a verdadeira vida, pois resulta de uma dimensão que não depende mais do tempo” — Teo Fischer.

Fischer afirma que o ego é prejudicial em nossa vida cotidiana, pois ele nos pressiona para querermos ser algo e fazer ligações com expectativas para o futuro. A morte do ego implica tanto em sermos abertos para críticas para incorporarmos o constante aprendizado a fim desenvolvermos nossas habilidades, quanto em nos soltarmos de quaisquer ideias nostálgicas em relação ao passado e ambiciosas quanto ao futuro.

“É o ego que se mantém rígido contra as influências de fora, e é essa “rigidez do ego” que torna impossível para nós aceitar tudo o que nos confronta”.

Lee aplicou essas ideias Zen às artes marciais. A partir do estudo de seu livro, O Tao do Jeet Kune Do, podemos dividir a ideia da Arte de Morrer em três pontos:

1. Morrer para o desejo de vitória

Bruce Lee afirmava que um dos maiores erros que um lutador pode cometer é o de antecipar o resultado da luta:

“Não pense em ganhar ou perder, não pense em orgulho e dor. (…) O maior erro é antecipar o resultado da luta. Você não deve pensar se ela termina em vitória ou derrota. Deixe a natureza seguir o seu curso, e suas armas serão usadas no momento certo” — Bruce Lee.

Lee enfatizava que, em uma luta, é necessário abandonar quaisquer expectativas em relação ao seu resultado. Um lutador deve ser desprovido de ansiedade pelos resultados, mas, ao mesmo tempo, não pode deixar de utilizar a inteligência e treino suficientes para se aperfeiçoar constantemente. Deixar o ego morrer significa agir como um “boneco de madeira: ele não possui ego, não pensa em nada, não é ganancioso nem se apega a nada ou a ninguém”.

“Não estabeleça nada em relação a si mesmo. Passe rapidamente, como algo que não existe, e seja quieto como a pureza. Aqueles que ganham perdem. Não se antecipe aos outros, sempre os siga” — Bruce Lee.

Por consequência, temos que nos livrar nossas mentes ambiciosas para conseguir desfrutar das nossas lutas diárias em nossa vida sem nos preocuparmos em pensar em termos de vitória ou derrota, afinal, “a luta contra e a favor é o pior distúrbio da mente”, dizia Lee. Nesse sentido, deixar que o ego morra significa se soltar do protagonismo das nossas próprias ações e focar “no ato de realizar, e não nas realizações”, afinal, “não existe um ator, mas sim a ação. Não existe um experimentador, mas sim o experimento”, dizia ele.

Lee classificou seis doenças que um lutador pode ter, e o primeiro deles é justamente esse:

As seis doenças:

1. O desejo de vitória;
2. O desejo de recorrer a técnicas ardilosas;
3. O desejo de exibir tudo o que foi aprendido;
4. O desejo de apavorar o inimigo;
5. O desejo de ser passivo;
6. O desejo de se livrar de qualquer mal que possa afetá-lo.

Na verdade, não apenas o desejo pela vitória é uma doença, segundo Lee, mas o próprio desejo em si já consiste em um problema:

“Desejar é um vínculo. “Desejar não desejar” também é um vínculo. Ser desvinculado, então, significa ser livre, ao mesmo tempo, de ambas as firmações, positiva e negativa. Isso é ser simultaneamente “sim” e “não”, o que é intelectualmente absurdo. Mas não no Zen” — Bruce Lee.

2. Morrer para as técnicas e o conhecimento

O esclarecimento das artes marciais, para Lee, significa esquecer de tudo o que se conhece por conhecimento. O conhecimento é criado a partir do passado e o esquecimento do conhecimento implica no lutador alcançar um estado de liberdade a fim fluir unicamente no momento presente, sem quaisquer limitações:

“A habilidade e o conhecimento alcançados devem ser “esquecidos” para que você possa flutuar confortavelmente no vazio, sem bloqueios. O aprendizado é importante, mas não deixe se escravizar. (…) Qualquer técnica, por mais valiosa e desejável que seja, se torna uma doença quando a mente fica obcecada por ela.” — Bruce Lee.

Existe uma vasta bibliografia na filosofia taoista que descreve a importância de desenvolvermos nossa capacidade de sentir e lidar com o inconsciente por meio da intuição para resolver uma série de problemas em nossa vida, e no Jeet Kune Do não é diferente. Lee, embora ressaltasse a importância da técnica, enfatizava que o lutador não deveria se submeter ou se limitar a ela:

“No Jeet Kune Do, todas as técnicas devem ser esquecidas e o inconsciente deve ser encarregado de lidar com a situação. A técnica se mostrará de forma automática ou espontânea. Mover-se com totalidade, não ter técnica, é ter todas as técnicas.” — Bruce Lee.

Morrer, neste ponto, está mais ligado à ideia da busca constante pelo aperfeiçoamento do aluno a partir do esquecimento das experiências anteriores e do desenvolvimento da habilidade de esvaziar a mente para que haja uma nova consciência. Lao-Tsé dizia que “o rompimento permite a renovação”, e a Arte de Morrer é uma forma de rompimento.

3. Morrer para o passado e o futuro

Uma pessoa com ego está presa à sua imagem distorcida, ao passado e ao futuro. Dessa forma, deixar o ego morrer exige nos desfazermos de quaisquer memórias passadas e expectativas futuras para que possamos fluir livremente no tempo presente, no aqui e no agora.

Passado e futuro são ideias provenientes do pensamento, portanto, artificiais. O passado é um conjunto de lembranças provenientes da memória e o futuro é um pensamento formado a partir da nossa ansiedade e expectativa. O presente, portanto, é o único espaço físico-temporal em que possamos atuar. Romper o passado que nos limita e o futuro que nos anseia resulta na consciência somente deste momento, afinal, todo o tempo é concentrado no agora.

Lee diz ao personagem de James Franciscus que ele “deve libertar sua mente ambiciosa”. Jiddu Krishnamurti, uma das principais referências na vida de Bruce Lee, sustentava essa visão:

A ambição em qualquer formato — pelo grupo, pela salvação individual ou pela realização espiritual — é uma ação adiada. O desejo é sempre do futuro; o desejo de tornar-se algo é a inação do presente. O agora tem maior importância do que o amanhã. Todo o tempo é o agora, e entender o agora é estar livre do tempo. Tornar-se é a continuação do tempo, da dor. Tornar-se não contém ser. Ser é sempre no presente e ser é a forma mais elevada de transformação. Tornar-se é apenas continuidade modificada e só existe transformação radical no presente, em ser” — Jiddu Krishnamurti.

“O Jeet Kune Do nos ensina a não olhar para trás depois que o percurso foi decidido. Ele trata a vida e a morte indistintamente”. (…) Para se expressar com liberdade, você deve esquecer o ontem. Do “velho”, você obtém segurança. Do “novo”, você ganha a fluidez.” — Bruce Lee.

Essas são somente algumas ideias filosóficas que Bruce Lee expressou em seus filmes, livros e outras aparições pela televisão, mas que passaram despercebidas por muitas pessoas.

Bruce Lee estudou Filosofia na Universidade de Washington na década de 1960. Um dos seus inegáveis méritos foi o de divulgar ao ocidente uma série de ensinamentos construídos a partir da filosofia oriental, principalmente taoistas e budistas, a partir das artes marciais.

Tanto as artes marciais como o esporte são uma grande metáfora para a nossa vida, e se desenvolvermos a capacidade de analisá-los com cuidado e atenção, será possível extrair valiosas lições para o cotidiano para lidar com uma série de problemas diários que nos rodeiam.

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Florianópolis, SC, Brasil. Contact: nicolasrufino4@gmail.com

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